quinta-feira, 1 de março de 2012

Poesia contemporâea, a terceira margem do rio.


    É engraçado o processo pelo o qual a poesia brasileira passou ao decorrer dos anos. Como não lembrar dos versos açucarados e dos sonetos e estruturas de composição italiana e francesas que foram incorporadas às práticas poéticas do nosso país?

    Impossível esquecer do romantismo e das musas que nos saltavam aos olhos nos romances e poemas brasileiros. Impossível não notar a preocupação dos poetas românticos em fazer com que os leitores sentissem as palavras e cantassem com a forma das suas poesias, ainda influenciadas pela sombras das arpas dos poetas de outrora.Esse primeiro momento na poesia nos remete sempre às belas e sistemáticas construções. A forma era quase ou mais importante do que o conteúdo e os cantos ainda permaneciam como vozes intrínsecas no corpus das obras.

  Acontece que tal qual a sociedade, que sempre se renova em sínteses, a poesia acabou se transformando e rompendo com alguns conceitos mais antigos, como a necessidade de uma sonoridade exagerada, por exemplo. Começou-se a se pensar em uma poesia mais livre, mais prosa, mais cotidiana. O modernismo brasileiro trouxe isso e uma literatura mais engajada, que só tinha sido ensaiada no realismo, com as obras de Machado. A poesia concreta, a práxis, a poesia marginal. Os conceitos se tornaram tão mais leves e o bacana é que a forma e os sistemas de significados estavam tão intrinsicamente juntos, que ficava quase impossível dissociá-los.

   Os críticos enlouqueceram, claro, chamavam tudo de poesia moderna e às vezes confeccionavam traduções e superinterpretações que nada tinham a ver com a obra ou poema em questão. Os mais tradicionais, como Monteiro Lobato, por exemplo, escreveram artigos severos contra a arte moderna, chamando-a de “paranoia ou mistificação”. Os pobres irmãos Campos sofreram duros golpes da crítica. Tudo isso motivou a poesia atual a se situar em uma margem de simbiose.

   Não é à toa que escrevo este pequeno artigo fazendo alusão ao conto de Guimarães Rosa, espero que a analogia pretendida explique um pouco mais sobre a poesia atual.  Não raro, vemos a poesia morrer, não só aqui no Brasil, mas, no mundo. Os críticos desapareceram, os autores estão desaparecendo. Ninguém mais tem tempo de ler a poesia, algo que requer um tempo todo próprio.

   As formas de composição mesclam entre o abandono estético da rima, as poesias de refugo e a síntese de conteúdos e formas modernas e românticas e, assim como no modernismo, os ensaios sobre poesia contemporânea acabam não passando dessa nomenclatura. Assim como no conto de Guimarães, vejo a poesia contemporânea como o senhor dentro de um barco, situado entre as duas margens de um rio.

   Uma que aponta para o passado de estima e supervalorização das formas e conceitos, outra, perspectiva em branco. E a poesia indecisa na pós-modernidade deixa em fragmentos um ou outro poeta em espaço privilegiado. Talvez aquele que se adeque às novas tecnologias ou aquele que saiba dizer forma mais própria possível tudo que já foi dito, ou não. Ou melhor, talvez como disse a poeta e amiga Claudia roquette pinto, o bom poeta seja aquele que consegue expor em palavras, algo de íntimo em mim, que toque algo que é íntimo no outro e só. E que forma e conteúdo só se encaixem quando um sentido idiossincrático caiba em uma forma idiossincrática.

    O fato é que a poesia se encontra abatida, sem perspectiva de caminhos ou estratégias a seguir, segue pálida, sem rumo. Tal qual o personagem de Rosa, nem aqui, nem ali, em um entre-lugar de criação. Esperando o que, quem ou Como? Realmente, caros leitores, não sei.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Subfundamentos da escrita: uma dialética do conhecimento.


   

    Poucas vezes, caros leitores, vi tamanho bom gosto no que diz respeito ao aprimoramento e uso da escrita para dar origem a um trabalho tão bem feito e, intelectualmente falando, composto.


   O fato é que o livro lançado pela editora Taba cultural, intitulado “Subfundamentos da escrita”, cuja autora, Regina Souza Vieira, tradutora e também poetisa, além de criticamente engajada no que concerne ao cenário literário, conseguiu dar voz a uma espécie de obra que, definiria, se a honra me fosse dada, como uma dialética do conhecimento e, também, como um manual para o entendimento das coisas não palpáveis e misteriosas que envolvem os estudos e a compreensão da literatura.


   O livro reúne artigos e opiniões bastante interessantes para o aprofundamento do estudo da escrita e de suas veredas socioculturais, dando forma ao conhecimento acadêmico, agindo, acima de tudo, como um formador e modelador de uma subjetividade sociobjetiva na qual, a escrita, a literatura e outras formas de comunicação verbal se tornam um através do empenho que toda leitura tem em agir na formação de uma consciência crítica.


   Talvez, minhas poucas palavras não sejam, caros leitores, suficientemente bem postas de forma que eu traduza toda a beleza(e digo beleza não pelo que apresenta-se bem escrito, mas, sim, pela forma como o conhecimento é transposto) da escrita que nos é revelada através de um título tão despretensioso, “Subfundamentos da escrita.” São por esses e outros motivos que me recuso a escrever mais, prefiro que cada leitor e/ou cada pessoa interessada pela temática, revele à própria alma, não espelhos opinativamente sedimentados, mas reflexos ideologicamente modificados com o conhecimento posto no livro de Regina. 



   Não se preocupem, não mais encherei vossos ouvidos com minhas ideologias, amigos leitores, tenho medo das palavras prostituírem-se com minhas impressões, quero que vocês mesmo criem e modifiquem suas opiniões, pois leitura é isso, ler, reagir, modificar, ou seja, plurissignificar-se na própria ideia de plurissignificação.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

ENTALHANDO CULTURA




Véio. Como pode um nome tão simples gerar tanta repercussão no cenário artístico sergipano e, também brasileiro? Como pode um artesão de uma cidade do interior do estado, que por muitas vezes não ouvido, lançar-se e ser reconhecido nacionalmente, mesmo sem muito apoio, nesse mar de ideias e, porque não, de significados?


Significados estes que hora se mostram sensíveis, com obras mais tradicionais, ora se mostram como frutos transformadores da realidade que nos é cabível. A verdade, digo-lhes, é que veio enganou a gente (e digo “gente”, me incluindo como um apreciador de sua arte), ele não entalha madeira, tampouco faz reles obras ecologicamente corretas.


Não, Véio não me engana, mesmo com sua espécie de jogo artesanal onde se combina luz e tradição com trevas e ideias pós-modernas, não consigo me ludibriar com tais sistemas de composição. Sabem por que, caros leitores? Porque nem os recursos que ele utiliza, recursos estes nas quais suas ideias não cabem, nem suas peças madeirescas, retratam o que Véio faz.

O que ele faz, isso com toda certeza, é entalhar sim, mas, não madeira, nem lindas obras, pois nem sempre o que é belo é digno de uma bela ideia, tampouco é artesão de coisas materiais, o que Véio entalha é cultura, moldando a golpes cada vez mais certeiros o material com o qual nossas subjetividades são formadas, material esse que não é físico, nem palpável, mas sim, existencial. Funcionando, através de suas obras e de suas contribuições, cada vez mais, como o coração artístico de Nossa senhora da Glória. 


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Livro X Filme?



A saber, sobre o universo do cinema, é preciso se dizer que, infinitas vezes, belos e porque não incomensuráveis clássicos da literatura tornam-se adaptações também geniais e, também, péssimas contribuições para a cinematografia. Mas, não critico as adaptações da sétima arte, sejam elas boas ou não, tampouco os filmes que se transformam em livros, o que critico (e isto com veemência), é a inexorável escolha entre um ou outro de forma a não reconhecer as especificidades de cada tipo de manifestação artística.


Por quantas vezes não somos pegos por opiniões, sejam elas próprias ou de outrem, que nos são chegadas através das seguintes proposições: “ah, o livro é bem melhor do que a adaptação dele.”; ou até mesmo, “Ah, o filme é muito curto, cortou várias partes do livro”. O grande problema nessa dialética da percepção, digo-lhes, é termos cuidado para não prostituirmos ou reduzirmos o cinema à literatura, ou a segunda em relação ao primeiro.


Temos que, antes de julgarmos, seja a adaptação de um livro ou um livro oriundo de um filme, entender as veredas funcionais da significação de cada tipo de arte, ou seja, a forma e o espaço artístico, elementos através dos quais a significação do sensível se torna objetiva. O que não se pode fazer é corromper as impressões de um filme baseados em pressupostos que não levam em conta que as manifestações e os tipos de arte diferem no que diz respeito às formas de significação do sensível, tampouco as de um livro, apoiando-se em ideologias reducionistas.


O que quero dizer é que não podemos julgar se uma adaptação é fiel ou não, ou se é bem produzida, tendo como base a intocável obra literária, ou mesmo se ficarmos presos à maneira pela qual descobrimos o enredo (isto referindo-me ao foco). É preciso que se saiba que o foco, o tempo, o espaço e as formas de apresentação dos mesmos se alteram e obtém plurissignificações próprias, peculiares. E, digo-lhes, que a não compreensão de tais formas de manifestação não só prejudica esta ou aquela arte, deteriora toda expressão e formação cultural de uma significação socioestética.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Prosa portuguesa contemporânea

Quando se fala em uma literatura contemporânea costuma-se falar sobre rupturas, novas tendências, neo isso, neo aquilo, e, embora se tenha rotulado vários escritores de contemporâneos é preciso saber primeiro que a contemporaneidade literária nada mais é do que o reconhecimento de certa literatura com a população, intelectual ou não, de uma época. O que vem sendo tratado pelos críticos literários como uma certa perda dos valores clássicos-literários, pois como sabemos, muitos deles não se preocupam tanto em analisar a poesia ou prosa contemporânea, preferindo dar mais ênfase nos trácicos cânones, criando assim uma espécie de anomalia espaço-temporal, onde os romances modernos não existem.
Pelo motivo supracitado é tão difícil se encontrar informações sobre a prosa comtemporânea deste ou daquele país, em relação ao nosso caso no que concerne à prosa portuguesa contemporânea. Mas, apesar do esforço dos críticos para fazer com que desapareça por completo essa geração, vamos nos ater a falar um pouco sobre alguns estilos  mais conhecidos do momento português no que diz respeito à prosa portuguesa contemporânea.
Para se fazer tais estudos, tomamos dois autores como centro deste trabalho, José Saramago e Augustina Bessa-Luís, juntos ajudaram a quebrar certos paradigmas da preservação de uma literatura clássica a fim de que se construísse uma renovação literária com focos de cunhos, digamos assim, diferentes mas, ao mesmo tempo, revolucionários, o neo-realismo e o romance psicossosial. 
Saramago, conta com uma espécie de romance moderno onde mescla a ideia de romance péssimo-realista com uma espécie de, como fez Fernando Pessoa, prosa poético-filosófica, versando sobre os mais diversos temas, desde fatores mais centrados na realidade sociológica e existencial, o que faz no romance “Ensaio sobre a cegueira”, até obras mais polêmicas que versam sobre a religião, em especial no livro “O evangelho segundo Jesus Cristo”, fazendo quase sempre alusões sarcásticas e/ou satíricas como se é próprio dos textos literários portugueses.
Já Augustina Bessa-Luís nos mostra um outro pólo do romance português atual, com sua espécie de narrativa psicológica em junção com as suas denúncias sociais, acaba sendo segundo o próprio Saraiva, um dos maiores estudiosos da literatura portuguesa, uma das melhores coisas que poderia acontecer na literatura lusitana desde o insuperável Fernando Pessoa, além disso, suas obras nos fazem lembrar de uma autora por demais conhecida aqui no Brasil e que também inovou e até digamos, assemelha-se muito à autora lusitana, Clarice Lispector, que, como Augustina faz em suas obras, também colocava o leitor em um espaço ficcional onde seu ângulo de visão é de dentro do personagem para fora do mesmo.
Dois pólos como se pode ver, quase que totalmente avessos, embora a ideia de revolução textual, seja ela de forma inconsciente ou não, nos remete ao cenário heterogêneo que é o mundo pós-moderno, não só em Portugal, como em âmbito mundial, o que fica como sugestão desde já para que tais prosas não sejam esquecidas nem deixadas de lado a favor de uma preservação clássica errônea e altamente hierarquizada, como a que está acontecendo no universo literário.   

terça-feira, 13 de julho de 2010

Memorando

Mémoria,
rio de fadas mortas
onde as corsas-ninfas
bebem o sangue de Mnemosyne.
Onde os corvos comem histórias e mito,
minto,
bebem a própria profusão da suja água,
onde a beleza descalça
banha os seus lindos seios murchos.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Rascunhos

Rabisco isto,
Isto risco
a risco deste isto
se esfarelar
no risco.