É engraçado o processo pelo o qual a poesia brasileira passou ao decorrer dos anos. Como não lembrar dos versos açucarados e dos sonetos e estruturas de composição italiana e francesas que foram incorporadas às práticas poéticas do nosso país?
Impossível esquecer do romantismo e das musas que nos saltavam aos olhos nos romances e poemas brasileiros. Impossível não notar a preocupação dos poetas românticos em fazer com que os leitores sentissem as palavras e cantassem com a forma das suas poesias, ainda influenciadas pela sombras das arpas dos poetas de outrora.Esse primeiro momento na poesia nos remete sempre às belas e sistemáticas construções. A forma era quase ou mais importante do que o conteúdo e os cantos ainda permaneciam como vozes intrínsecas no corpus das obras.
Acontece que tal qual a sociedade, que sempre se renova em sínteses, a poesia acabou se transformando e rompendo com alguns conceitos mais antigos, como a necessidade de uma sonoridade exagerada, por exemplo. Começou-se a se pensar em uma poesia mais livre, mais prosa, mais cotidiana. O modernismo brasileiro trouxe isso e uma literatura mais engajada, que só tinha sido ensaiada no realismo, com as obras de Machado. A poesia concreta, a práxis, a poesia marginal. Os conceitos se tornaram tão mais leves e o bacana é que a forma e os sistemas de significados estavam tão intrinsicamente juntos, que ficava quase impossível dissociá-los.
Os críticos enlouqueceram, claro, chamavam tudo de poesia moderna e às vezes confeccionavam traduções e superinterpretações que nada tinham a ver com a obra ou poema em questão. Os mais tradicionais, como Monteiro Lobato, por exemplo, escreveram artigos severos contra a arte moderna, chamando-a de “paranoia ou mistificação”. Os pobres irmãos Campos sofreram duros golpes da crítica. Tudo isso motivou a poesia atual a se situar em uma margem de simbiose.
Não é à toa que escrevo este pequeno artigo fazendo alusão ao conto de Guimarães Rosa, espero que a analogia pretendida explique um pouco mais sobre a poesia atual. Não raro, vemos a poesia morrer, não só aqui no Brasil, mas, no mundo. Os críticos desapareceram, os autores estão desaparecendo. Ninguém mais tem tempo de ler a poesia, algo que requer um tempo todo próprio.
As formas de composição mesclam entre o abandono estético da rima, as poesias de refugo e a síntese de conteúdos e formas modernas e românticas e, assim como no modernismo, os ensaios sobre poesia contemporânea acabam não passando dessa nomenclatura. Assim como no conto de Guimarães, vejo a poesia contemporânea como o senhor dentro de um barco, situado entre as duas margens de um rio.
Uma que aponta para o passado de estima e supervalorização das formas e conceitos, outra, perspectiva em branco. E a poesia indecisa na pós-modernidade deixa em fragmentos um ou outro poeta em espaço privilegiado. Talvez aquele que se adeque às novas tecnologias ou aquele que saiba dizer forma mais própria possível tudo que já foi dito, ou não. Ou melhor, talvez como disse a poeta e amiga Claudia roquette pinto, o bom poeta seja aquele que consegue expor em palavras, algo de íntimo em mim, que toque algo que é íntimo no outro e só. E que forma e conteúdo só se encaixem quando um sentido idiossincrático caiba em uma forma idiossincrática.
O fato é que a poesia se encontra abatida, sem perspectiva de caminhos ou estratégias a seguir, segue pálida, sem rumo. Tal qual o personagem de Rosa, nem aqui, nem ali, em um entre-lugar de criação. Esperando o que, quem ou Como? Realmente, caros leitores, não sei.

